Punta Arenas foi oficialmente a porta de entrada e de saída da nossa aventura pela Patagônia Chilena e Argentina — e, honestamente, nenhum outro lugar teria cumprido esse papel de forma tão… intensa.
Chegamos à cidade em 18 de abril de 2025, depois de um voo Guarulhos → Santiago → Punta Arenas, prontos para começar a saga com a organização e o planejamento de sempre. Mas Patagônia sendo Patagônia, logo no primeiro dia ela nos mostrou que quem manda no roteiro é ela, não nós.
O plano era simples: desembarcar, pegar o carro alugado, passar a noite em Punta Arenas e partir ao amanhecer rumo ao sul. Mas, como você provavelmente já leu no artigo sobre o quase-aluguel-de-carro-que-virou-livramento, que você pode conferir [neste link], as coisas tomaram um rumo diferente. E que bom! Às vezes a viagem te trás um problema que na verdade é um presente — mas só até você perceber que, na verdade, era o universo te livrando de uma furada monumental.
Depois da novela do aluguel, ainda ficamos no aeroporto travados por horas tentando conseguir um táxi. E não era um “ai que demora”, era uma verdadeira epopeia chilena. Já estávamos quase oferecendo carona para nós mesmos quando finalmente apareceu uma taxista absolutamente salvadora: nos levou ao Airbnb, nos deu dicas preciosas, indicou um ótimo restaurante para o jantar e, como se fosse pouco, ainda nos buscou na manhã seguinte bem cedinho para nos deixar no ponto de partida do ônibus rumo ao Ushuaia. Esse trecho da viagem — Punta Arenas até Ushuaia — também já está contado em detalhes [neste link].
Voltamos a Punta Arenas apenas no final da viagem, no dia 30 de abril, depois de rodarmos pela Patagônia e vivermos mais histórias do que um seriado de dez temporadas. Dessa vez, ficaríamos até 2 de maio, quando embarcaríamos de volta ao Brasil. E aí, meu amigo… foi quando a cidade decidiu nos proporcionar um desfecho digno de cinema — incluindo feriado surpresa, galeão histórico e até alerta de tsunami. Sim, você leu certo.
Mas antes do caos, vamos aos encantos.
Cidade organizada, charmosa e com muito vento (muito mesmo)
Punta Arenas é uma cidade linda, organizada e com aquela atmosfera de “fim do mundo civilizado”. Caminhamos bastante pelos seus bairros, admiramos suas construções coloridas e bem cuidadas, observamos praças espaçosas, ruas amplas e uma orla deslumbrante de frente para o mítico Estreito de Magalhães.


E já que mencionamos o estreito: estar diante dele é quase uma aula viva de história. Ali passaram expedições, navegadores, aventureiros e, claro, Magalhães, que não imaginava que um dia seu nome seria citado por turistas correndo de tsunami. Mas vamos por partes…







O feriado que nos pegou de surpresa
Dia 1º de maio. Acordamos animados para aproveitar a cidade, só que esquecemos de um detalhe simples: o Dia do Trabalhador também existe no Chile. E, assim como no Brasil, absolutamente tudo fecha. Lojas? Fechadas. Restaurantes? Quase todos fechados. Vontade de passear? Aberta, firme e forte.
Apesar do feriado, conseguimos visitar uma das atrações mais interessantes da cidade: o Museu Nao Victoria. O destaque do lugar é a réplica em tamanho real da embarcação usada por Fernão de Magalhães em sua expedição. Impressionante por fora, ainda mais impressionante por dentro. O ingresso custa cerca de $10.000 CLP (aprox. R$ 55–60), vale cada centavo e rende fotos que parecem ter vindo de um filme histórico.











O museu também conta a história da região, dos navegadores que desbravaram o estreito e da importância geográfica desse ponto do planeta conhecido — não por acaso — como Terra do Fogo. O nome surgiu porque os exploradores europeus, ao passarem pela região no século XVI, avistavam inúmeras fogueiras acesas pelos povos indígenas nas ilhas próximas; à distância, aquelas chamas riscavam o horizonte como pequenos vulcões vivos, dando origem ao nome dramático e perfeito para um lugar tão inóspito quanto fascinante.




















E como estávamos sem comércio e sem muito o que fazer, aproveitamos para caminhar pela orla, tirar fotos das esculturas icônicas, visitar a zona franca (que mereceu um artigo só dela — e você pode conferir [neste link]), e explorar os bairros mais altos da cidade, onde existe um mirante natural com vista panorâmica da cidade inteira e do estreito ao fundo, o mirador Cerro de La Cruz.

O Cerro de La Cruz fica próximo ao centro da cidade e é um dos mirantes mais populares e acessíveis em Punta Arenas — de lá você consegue ver boa parte dos telhados coloridos da cidade, a água do Estreito de Magalhães e, em dias claros, até as montanhas ao fundo.


E então veio o dia 02/05… o dia do tsunami
Se o dia anterior foi de surpresa, o 2 de maio resolveu inovar.
Como a zona franca não rendeu boas compras, o grupo se dividiu:
- Bruno e Agata voltaram lá para garantir alguns souvenirs;
- Ronaldo saiu para dar uma volta perto do hotel;
- e eu decidi fazer o que qualquer pessoa sensata faria numa manhã fria de Punta Arenas: correr 10 km na orla apreciando o Estreito de Magalhães.
Até aí, tudo ótimo.
Mas eis que, em determinado momento, a polícia chilena – Os Carabineiros de Chile – me parou. Meu primeiro reflexo? Puxar o passaporte do bolso. A resposta do policial? “Señor, vuelva inmediatamente al hotel. Hay alerta de tsunami.”
Sim, meus amigos. Alerta de tsunami.
Eu, um brasileiro que acha que tempestade forte já é evento natural suficiente, de repente no meio da Patagônia recebendo alerta oficial de evacuação costeira. No mesmo instante, todos os celulares da cidade começaram a tocar aquele alarme assustador, igual aos avisos da Defesa Civil no Brasil — só que em outra escala, né?
A população começou a se deslocar para as áreas altas da cidade, exatamente onde havíamos estado no dia anterior. Restaurantes fechados, lojas fechadas, gente nervosa, eu correndo de volta para o hotel (agora por sobrevivência e não por esporte), e uma sensação de “o que mais falta acontecer?”.
Foram horas tensas, de apreensão mesmo. Depois o alerta foi suspenso, a vida voltou ao normal, mas a paz… essa ficou abalada. Honestamente? A minha viagem terminou ali. Passei o resto do dia pensando no voo do dia seguinte, no risco de terremoto, se o mar voltaria para buscar alguém… traumas de turista tropical, entende?
Conclusão
Punta Arenas foi muito mais do que ponto de chegada e partida. Foi palco de sustos, história, beleza, desafios logísticos, vento batendo na alma e emoções dignas de um bom filme de ação hollywoodiano.
É uma cidade fascinante, cheia de cultura, com vistas incríveis do Estreito de Magalhães, museus surpreendentes, moradores acolhedores e uma natureza que te lembra o tempo todo o quão pequeno você é no planeta. E, se servir de conselho: vá, aproveite, explore…, mas mantenha o celular carregado. Nunca se sabe quando um alerta de tsunami quer fazer parte da sua experiência turística.












