Quando pensamos em uma viagem ao Peru, é fácil colocar Lima em segundo plano. Cusco e Machu Picchu costumam ocupar quase todo o imaginário de quem planeja a viagem. Foi mais ou menos assim conosco. Lima seria nossa porta de entrada, um lugar para conhecer antes de seguir para Cusco. Só que a capital peruana acabou ganhando muito mais espaço na nossa memória do que imaginávamos.
Nossa passagem aconteceu em dois momentos. Chegamos em 18 de abril e ficamos até o dia 21, quando seguimos para Cusco. Depois de conhecer Machu Picchu e retornar a Lima no dia 27, ainda tivemos mais alguns dias na cidade, até 1º de maio. Essa segunda passagem foi importante porque percebemos que os primeiros dias tinham mostrado apenas uma parte de Lima.
A cidade também nos recebeu com uma característica impossível de ignorar: o trânsito. O caminho do aeroporto até Miraflores já deixou claro que deslocamentos em Lima exigem paciência. Em compensação, ficar em Miraflores foi uma ótima escolha. O Hotel Ferré de Miraflores, onde nos hospedamos, tinha uma localização muito conveniente, perto de restaurantes, comércio e, principalmente, do Larcomar e da orla.
18 de abril: Chegada, Miraflores e o primeiro encontro com o Pacífico
Chegamos por volta das 11h e seguimos de transfer oferecido pelo hotel. Depois do trânsito e do cansaço da viagem, nossa prioridade era bem simples: comer. O Larcomar, a poucos minutos do hotel, foi a escolha natural.




O Larcomar merece uma atenção especial porque é mais do que um shopping. Construído sobre os penhascos de Miraflores, ele combina lojas, restaurantes e espaços abertos com uma das vistas mais bonitas da cidade. O Pacífico aparece logo à frente, em um cenário que provavelmente seria um dos mais fotografados de toda a viagem.

Como estávamos famintos, escolhemos rapidamente o Popular de aquí y de allá, entre as muitas opções disponíveis.

Depois do almoço, voltamos ao hotel para descansar da viagem. À noite, porém, retornamos ao Larcomar. A paisagem tinha mudado completamente: o oceano continuava lá, mas agora acompanhado pelas luzes de Miraflores. Jantamos no Chili’s Grill & Bar e foi também nossa primeira oportunidade de experimentar um Pisco Sour, um dos clássicos peruanos. A bebida, preparada tradicionalmente com pisco, limão, açúcar e clara de ovo, tem uma textura e um colarinho bastante característicos.





Foi um primeiro dia simples, mas suficiente para entendermos duas coisas: Lima era grande e movimentada; e Miraflores seria uma excelente base para explorar a cidade.
19 de abril: O Centro Histórico, as catacumbas e os gatos de Miraflores
Nosso segundo dia foi dedicado principalmente ao Centro Histórico. Começamos pela Plaza Mayor, o grande coração histórico de Lima. É um espaço cercado por construções importantes e que ajuda a entender a dimensão histórica da cidade. Naturalmente, também encontramos uma loja de souvenirs porque viagem sem lembrancinha não parece viagem.










Visitamos a Catedral de Lima e seguimos caminhando pela região até o Parque de la Muralla, onde aproveitamos para almoçar no restaurante La Muralha. Depois fomos à Plaza San Martín, outro dos espaços mais conhecidos do centro.







Ali fica o tradicional Hotel Bolívar, famoso por seu Pisco Sour. Entramos para conhecer o hotel e rapidamente entendemos por que ele é tão comentado. O grande salão de entrada é elegante e chama atenção pelo teto de vidro, que dá ao ambiente uma aparência muito bonita. O famoso Pisco Sour, porém, acabou ficando para outra ocasião: achamos o preço alto demais para o nosso grupo. Afinal, tradição é tradição, mas também precisamos olhar a conta. rsrs




Seguimos para o Convento de San Francisco e suas famosas catacumbas. Essa foi uma das visitas mais marcantes do dia. O convento já impressiona pela arquitetura e pela história, mas a parte subterrânea dá à experiência um tom completamente diferente. As catacumbas foram utilizadas como local de sepultamento e a visita passa por ambientes onde estão expostos inúmeros ossos e restos mortais. É uma atração que pode causar certo desconforto, mas justamente por isso fica na memória. Não é apenas uma visita turística: é um contato bastante direto com os costumes funerários de outra época.







Ainda passamos pelo Convento de Santo Domingo antes de retornar a Miraflores. À noite fomos ao Parque Kennedy. E aqui tivemos outra surpresa: a quantidade de gatos espalhados pelo parque. Nunca tínhamos visto tantos gatos juntos em um espaço público. O parque e seus arredores também são muito agradáveis, com bastante movimento, comércio, restaurantes e cafés. Para jantar, escolhemos a charmosa Mama Lola, uma pizzaria que combinou bem com o clima descontraído do bairro.





20 de abril: Museu Larco, oliveiras e uma pirâmide no meio da cidade
O dia começou com uma das visitas que mais nos surpreendeu em Lima: o Museo Larco. O museu funciona em uma bela construção cercada por jardins e apresenta uma coleção dedicada a milhares de anos da história do antigo Peru. É um lugar em que o próprio ambiente faz parte da experiência.



A exposição ajuda a entender as sociedades pré-colombianas e a forma como enxergavam o mundo. Uma das áreas mais curiosas é a Galeria Erótica, com peças que mostram como a sexualidade era representada na arte de antigas sociedades peruanas. É uma coleção que chama atenção, mas que também ajuda a compreender aspectos culturais que muitas vezes não aparecem nas narrativas mais tradicionais sobre o Peru.
De lá seguimos para o Parque El Olivar, em San Isidro. O parque é famoso por suas oliveiras e oferece uma experiência completamente diferente do centro histórico. É tranquilo, verde e ótimo para caminhar. A visita ainda rendeu uma experiência que virou piada entre nós: comer uma azeitona diretamente da árvore. Eu adoro azeitona, mas descobri que azeitona crua, recém-retirada do pé, é outra história. Digamos apenas que a experiência não repetiu o sucesso das azeitonas que chegam à mesa.



Depois do almoço nas proximidades, especificamente no hotel Vista al Mar, fomos conhecer a Huaca Pucllana. E talvez seja essa uma das imagens que melhor representam Lima: uma estrutura arqueológica pré-colombiana no meio de uma área urbana moderna. A Huaca Pucllana foi um importante centro cerimonial da cultura Lima e suas estruturas de adobe permanecem cercadas por prédios, ruas e pelo movimento de Miraflores. É uma lembrança muito concreta de que, por baixo da Lima moderna, existe uma história que começou muitos séculos antes.


















À noite fomos ao La Lucha Criolla. Vamos deixar os detalhes da comida para outro artigo, mas já adianto: aquele sanduíche chamou nossa atenção.

21 de abril: Uma manhã tranquila diante do Pacífico
Depois de dois dias bastante intensos, o dia 21 foi propositalmente mais leve. Aproveitamos a manhã para caminhar pela orla de Miraflores e conhecer o Parque del Amor e a região do farol. Foi uma manhã de caminhar sem pressa, olhar o oceano e tirar muitas fotos.







O Parque del Amor é um dos pontos mais conhecidos da orla e tem como destaque a escultura El Beso, além dos bancos e mosaicos que acompanham o mirante. A grande atração, porém, continua sendo a vista para o Pacífico.

Voltamos ao Larcomar para um lanche no Lucio Café, com crepes e café, e aproveitamos novamente a localização do shopping para tirar algumas fotos com o oceano ao fundo. Pouco depois, era hora de seguir para o aeroporto. Nossa primeira passagem por Lima terminava ali. Mas, em vez da sensação de missão cumprida, saímos com a impressão de que ainda faltava muita coisa. E voltaríamos.
27 de abril: De volta a Lima
Depois de Cusco e Machu Picchu, nosso voo chegou novamente a Lima por volta das 20h. Repetimos o caminho de transfer até o Hotel Ferré de Ville, agora já familiar, e naquela noite não havia muito o que fazer: jantar, descansar e recuperar as energias.
A segunda passagem pela cidade, porém, teria um ritmo diferente. Já conhecíamos Miraflores e algumas das principais atrações, então poderíamos explorar lugares com mais calma e sair um pouco do roteiro tradicional.
28 de abril: De Miraflores a Barranco
Começamos o dia com um café no Starbucks do Larcomar e depois seguimos caminhando pela orla em direção a Barranco. Foi um dos passeios mais agradáveis da viagem porque não dependia de uma atração específica: o próprio caminho era o passeio.
A região de Barranco tem um clima diferente de Miraflores. É mais boêmia, artística e descontraída, com ruas arborizadas, casas antigas, murais, cafés e muitos lugares interessantes para parar. Chegamos ao famoso Puente de los Suspiros, um dos símbolos do bairro e um dos lugares mais fotografados da cidade. A ponte, ligada à história de Barranco e também à obra de Chabuca Granda, fica em uma região que convida a caminhar sem pressa. Infelizmente a ponte estava em reforma e a vontade desbrava-la ficará para a próxima oportunidade.








Depois de tantas fotos, chegou a hora de outra atividade igualmente importante: parar para beber alguma coisa. No restaurante Javier fizemos uma verdadeira maratona de drinks — Mojito, Singapur, cerveja, Margarita com Corona e Machu Picchu, acompanhados de tequeños de queso. Definitivamente, foi um dos dias mais alcoólicos da viagem. rsrs



No fim da tarde, ainda tivemos uma recompensa: um belíssimo pôr do sol sobre o Pacífico. Lima realmente sabe criar cenários bonitos quando o sol começa a desaparecer.

E, para o jantar, fizemos algo que já dava uma pista da nossa opinião sobre o La Lucha Criolla: voltamos. Precisávamos confirmar se o sanduíche era realmente tão bom quanto lembrávamos. Era.
29 de abril: Mercado de Surquillo e o espetáculo das águas
Queríamos conhecer um pouco mais da Lima cotidiana, então fomos ao Mercado de Surquillo. Nossa primeira intenção era visitar o Mercado nº 1, mas encontramos o local fechado e acabamos seguindo para o nº 2.
Foi uma experiência interessante porque o mercado mostra uma Lima diferente daquela dos cartões-postais. Frutas, verduras, carnes, temperos, produtos locais e a movimentação dos moradores dão ao visitante uma visão mais espontânea da cidade. Não é uma atração monumental, mas é justamente isso que torna a visita interessante.


Depois voltamos de Uber para a região de Larcomar e, à noite, fomos ao Circuito Mágico del Agua, no Parque de la Reserva. O lugar surpreende principalmente depois que escurece. São diversas fontes que combinam água, iluminação, música e projeções, transformando os jatos de água em uma espécie de tela. Em alguns momentos, a história e a cultura do Peru aparecem projetadas sobre a água, criando um espetáculo visual bastante diferente das atrações que havíamos visitado durante o dia




Pagamos 25 soles pelos ingressos e saímos com a sensação de que tinha valido muito a pena. É um passeio que funciona especialmente bem à noite e que pode ser uma ótima forma de encerrar um dia de visitas.




Depois fomos ao Siete Sopas, onde começamos a explorar mais um pouco da gastronomia peruana. Mas, como prometido, essa parte merece um artigo próprio.
30 de abril: Callao, Barranco e o primeiro ceviche
No dia 30 decidimos conhecer Callao, cidade portuária vizinha de Lima. A intenção era visitar a Fortaleza Real Felipe, mas descobrimos que a entrada exigia pagamento em dinheiro e nós não tínhamos espécie suficiente. Mais uma pequena lição de viagem: sempre é bom carregar algum dinheiro local.






Sem a fortaleza, aproveitamos para conhecer a cidade. Passamos pela orla, rodamos bastante pelas ruas e chegamos ao centro de Callao. A sensação foi de estar diante de uma cidade com potencial turístico muito grande, mas que, pelo que vimos naquele momento, parecia pouco explorada. Algumas áreas transmitiam até uma impressão de abandono.









Também tomamos um excelente café da manhã no El Nakary Restaurant, antes de retornar a Lima.


Antes de encerrarmos nosso passeio por Callao, também fomos conhecer La Punta. Gostamos bastante do lugar! É uma região bem diferente do centro, mais tranquila, com ruas agradáveis e, principalmente, aquela sensação gostosa de estar de frente para o Oceano Pacífico. Aproveitamos para caminhar um pouco, apreciar a paisagem e, claro, tirar algumas fotos. Foi uma passagem rápida, mas que valeu muito a pena incluir no nosso roteiro por Callao.



De volta a Barranco, chegou finalmente a hora de encarar um dos pratos mais famosos do Peru: o ceviche. Almoçamos no Posada del Mirador e eu fui o responsável por experimentar o prato. Peixe não é exatamente minha comida preferida, então havia uma certa expectativa. O ceviche foi aprovado, embora eu continue tendo outros pratos peruanos como favoritos.




Depois do almoço ainda aproveitamos um pouco mais de Barranco, suas vistas e a orla. À noite, fomos ao KFC do Larcomar para um jantar mais simples. Depois de tantos restaurantes, ninguém é de ferro.
1º de maio: Último almoço e hora de voltar
Nosso último dia no Peru chegou rápido. Antes de seguir para o aeroporto, ainda tivemos tempo para um último almoço no Larcomar. Escolhemos o Saltado Larcomar e, naturalmente, não poderíamos deixar a viagem terminar sem mais um lomo saltado. Depois foi hora de voltar ao hotel, pegar as malas e seguir para o aeroporto. A viagem, que tinha começado com Lima como uma espécie de ponto de passagem, terminava com a cidade ocupando um espaço bem maior na nossa lembrança.
Lima nos surpreendeu
Lima acabou sendo muito mais do que esperávamos.
Encontramos uma cidade de contrastes: o Centro Histórico e suas igrejas, praças, conventos e catacumbas; o passado pré-colombiano do Museo Larco e da Huaca Pucllana; a tranquilidade de El Olivar; os gatos do Parque Kennedy; a modernidade de Miraflores; o clima boêmio de Barranco; os mercados populares; os espetáculos noturnos; e, acompanhando boa parte da viagem, o enorme Oceano Pacífico.
Também aprendemos que Lima precisa ser explorada com um pouco de paciência. O trânsito pode testar qualquer turista, mas, quando conseguimos desacelerar, caminhar e simplesmente observar, a cidade entregou experiências que não estavam necessariamente no nosso roteiro.
Foram dias de muita caminhada, muitas fotos, algumas histórias engraçadas, alguns drinks a mais e várias descobertas.
Quando chegamos, Lima parecia apenas o começo da viagem. Quando fomos embora, ficou a certeza de que ela também tinha sido uma das experiências mais interessantes do Peru.
Obrigado, Lima!












